2ª aula ------- Dia 03 de março de 2005
2ª aula - Cultura e Subjetividade 03 de março de 2005
Babi – Questões sobre o texto? Questões, comentários, sugestões?
Glau – (?) No segundo parágrafo, ele fala sobre a cultura de massa...(?)
Babi – Glau, na página 31, não sei se você já tem esse texto, que é o segundo texto... (?) porque eu tenho a impressão que vocês já vão começar a entrar em questões em que o autor está formalizando no texto seguinte. Na página 31, que é o segundo capítulo, tem o tópico 3, que é produção de subjetividade e individualidade. O autor vai discutir isso, e o autor vai, exatamente, fazer essa separação. O que é o indivíduo, segundo Guattari, e o que é subjetividade? Alguém quer discutir isso, ou talvez, até mesmo ler pra gente?
Glau – (?)
“Seria conveniente dissociar radicalmente os conceitos de indivíduo e de subjetividade. Para mim, os indivíduos são o resultado de uma produção de massa. O indivíduo é serializado, registrado, modelado. Freud foi o primeiro a mostrar até que ponto é precária essa noção da totalidade de um ego. A subjetividade não é passível de totalização ou de centralização no indivíduo. Uma coisa é a individuação do corpo. Outra é a multiplicidade dos agenciamentos da subjetivação: a subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro social. (...)” Pág . 31
Babi - Subjetividade não tem nada a ver com indivíduo. Ela não é inventada pelo indivíduo. Nesse sentido, a função que a gente tem dado ao termo subjetividade, a “minha” subjetividade, é no mínimo uma (? licenciosidade) que a gente está dando à palavra subjetividade, recolocando essa palavra no plano do nosso entendimento de individualidade. A palavra subjetividade, infelizmente, tem sido capturada a partir de um pensamento, já muito conhecido, que é esse pensamento de uma certa concepção psicológica, (? exótica) do indivíduo, e que confunde a individuação biológica, a autonomia do zigoto que ainda está vinculado ao cordão umbilical da mãe, confundido, excessivamente, à identidade.
Glau – Então, está dizendo que a identidade é igual à subjetividade?
Babi - Não! Estou dizendo, exatamente, a identidade como foi concebida. E a subjetividade não é a mesma coisa (?)...individualidade e subjetividade, como o autor está dizendo aqui... A subjetividade é, fundamentalmente, produzida registro social, ela é uma produção social. O indivíduo, ao nascer, já se insere dentro dessa produção.
Glau – (?)
Babi – Você já nasce num grupo. Então, a existência do grupo, a existência da subjetividade, vai dizer o modo que ele distingue enquanto ser humano, o modelo de existência. O que é a subjetividade, fundamentalmente? A subjetividade é um modo de existência social.
A gente vai ver que esse social, tá todo num (? ambiente ) ideológico, esse social é político. Na verdade, um modo de existência, essa lógica também do mal. É complexo...uma totalidade. Então, o indivíduo quando nasce, já nasce num grupo que (? tem um modo de subjetividade). Então, o autor (? tem ? modos ?) é isso que ele chama de, a cultura capitalística que é mundial e totalitária, (? E ele propõe diferenças que opõe a subjetividade ?) E produz exatamente o indivíduo, ou seja, a série. O que é o indivíduo? É o animal em série, a serialização. A individualidade é serial.
Ex. Ninguém nega que existe esta cadeira, a sua cadeira, aquela outra cadeira, mas essas cadeiras todas que são aparentemente individuais. Essas cadeiras estão afastadas umas das outras, elas se parecem (?). No entanto, a produção delas é uma produção em série. O indivíduo, segundo o autor, é fundamentalmente aquilo que é produzido em série. É diferente da singularidade. A singularidade é aquilo que a gente tem chamado de individualidade. A singularidade, ela me obriga a dobrar o modo de subjetividade, ou, os modos de subjetividade, de me contrapor, me obriga a me colocar numa relação de resistência, de criatividade com relação à esses modos de (?subjetividade). Me faz singularizar um modo único que é colocado como modelo, como modo de (?existência). Ou seja, a singularidade é uma dobra da subjetividade.
Diego – (?)
Glau- (?)
Babi – O que é o eu? Na realidade o eu é um (?conceito) operacional. Antes de Freud (?existe o inconsciente, ninguém tava mal. Hoje existe o mal ) Falar de identidade, de inconsciente tudo (?invenção de) Freud. Não tinha identidade, não tinha (?Não existia ? neurose, nem prozac, nem análise ?) Não estou querendo desqualificar (? Como invenção de Freud) O que eu estou querendo dizer é que o conceito de eu é uma ferramenta inventada por nós (?para nos orientarmos) A questão é saber: o conceito de ego, inconsciente dá conta efetivamente da (? nossas ). Então é essa a problemática (?) Eu proponho, ao invés dessa identidade, eu proponho agenciamento. O agenciamento é muito diferente do eu. O eu supõe-se aquilo que é (? Intrínseco) do indivíduo, o eu é sempre imutável, sempre permanece apesar das mudanças. Ex. Eu era criança e agora sou velho, mas alguma coisa permanece em mim, é a minha identidade (?fundamental) Inclusive, observando o rosto e ver a ruga chegando (?) mas eu ainda pareço com aquilo que eu era criança. É essa continuidade que nos dá a sensação de (?identidade),ou seja, de que algo permanece. Por conta, exatamente, da transcrição do padrão. Tem um livro do Deleuze (?a individuação é diferente de ?) É interessante a gente perceber como que se dá esse tipo de repetição sem, necessariamente, (?) O autor está dizendo que: o que você chama de eu, o ego, é uma montagem, é um agenciamento. E todo agenciamento é do caráter da (? probitoriedade ) Não tem propriamente uma consistência, não é um núcleo imutável, sólido. As identidades são (?da ordem) dos agenciamentos, da subjetividade matriz...Uma montagem!
Ex. (?) colar figurinhas, montar um painel...a bricolagem...A identidade é uma bricolagem, é um agenciamento (?)
Conversas...
Glau – (?) “Ao invés de sujeito, de sujeito de enunciação ou das instâncias psíquicas de Freud, prefiro falar em agenciamento coletivo de enunciação. O agenciamento coletivo não corresponde nem a uma entidade individuada, nem a uma entidade social predeterminada.” “A subjetividade é produzida pr agenciamento de enunciação. Os processos de subjetivação, de semiotização – ou seja, toda a produção de sentido, de eficiência semiótica – não são centrados em agentes individuais ( no funcionamento de instâncias intrapsíquicas, egóicas, microssociais), nem em agentes grupais. Esses processos são duplamente descentralizados. Implicam o funcionamento de máquinas de expressão que podem ser tanto de natureza extrapessoal, extra- individual (sistemas maquínicos, econômicos, sociais, tecnológicos, icônicos, ecológicos, etológicos, de mídia, enfim sistemas que não são mais imediatamente antropológicos), quanto de natureza infra-humana, intrapsíquica, infrapessoal ( sistemas de percepção, de sensibilidade, de afeto, de desejo, de representação, de imagens, de valor, modos de memorização e de produção idéica, sistemas de inibição e de automatismos, sistemas corporais, orgânicos, biológicos, fisiológicos, etc.).” Pág. 31 (?)
Babi – Bom, no momento que a nossa amiga Glau, na aula passada, estava falando ‘de a “minha subjetividade”’ ela tava (?) quando no fundo quis pensar “a minha individualidade”. É isso que muita gente vem fazendo hoje em dia, e que (?) se tem difundido essa noção de subjetividade. Tem-se difundido (?)movimento comum, popular e na academia também. Essa noção de subjetividade ela é uma reinvenção da compreensão (?) da individualidade. Não é a subjetividade problematizada, segundo Guattari. O que Guattari está falando é que a subjetividade não tem nada a ver com indivíduo, ela não é produzida pelo indivíduo.
O nosso exercício aqui...A nossa forma de pensamento, ela é sincrética: a gente quer saber se São Jorge corresponde mesmo ao (?), se Santa Bárbara é (?), se o diabo é o exu, estamos tentando ver. Pô, Santa Bárbara é uma coisa...Isso não tem nada a ver com Santa Bárbara, a não ser no pensamento sincrético. O que busca no outro que é diferente, e a gente procura enrrabá-lo pela analogia. O outro é irredutível (?) É um modo de pensamento sincrético, que no fundo, no fundo, não entende, nem respeita, mas quer enrrabar a diferença. Eu enrrabo impondo a seguinte visão: “ah sim...(?) na verdade é Santa Bárbara!” Esse é um pensamento colonialista típico, é o que legitima, hoje, muitos dos cristãos que estão nas pastorais engajadas, na corrente da libertação... Tem muitos que estão no meio dos índios, fazendo um trabalho de apoio aos grupos indígenas. Talvez, nem se dê conta, mas são fundamentados numa teoria de engajamento, que pressupõe que as sementes da boa nova do evangelho, de alguma maneira, já existem entre esses índios: “Eles nem sabem que são cristãos, mas são!” São processos de (?extremismos racial), mas a partir dos valores, rituais já vivem a boa nova. Essa é a fundamentação da teologia engajada, é o pensamento, ainda, sincrético que, a todo o momento, tenta encontrar no outro aquilo que no fundo, no fundo, sou eu. Isso é sincretismo!
Glau – (?)
Babi - Não! Por exemplo, a subjetividade é fundamentalmente macro, ela é social. A subjetividade é superior a singularidade.
Glau – (?) Se ela é social, eu não estou conseguindo definir (?) modelado...modelado pelo social? (?)
Babi – Não! Na verdade é uma relação de troca. Quando eu falo que a subjetividade precede a existência do indivíduo, é porque o indivíduo todo já nasce no grupo. O que o autor tá chamando de subjetividade é o que a gente aprendeu a chamar, a partir de alguns conceitos da Antropologia Clássica, que o autor diz que é conceito reacionário, é o que a gente chama de cultura. O que o autor tá chamando de subjetividade é o que a gente aprendeu a chamar de cultura. Só que o autor faz a crítica desse conceito e mostrando que a noção de cultura é uma noção reacionária e reificada. A cultura supõe a permanência daquilo que é fluxo. Identidade também é reacionária, porque ela pressupõe a permanência daquilo que é fluxo em nível do indivíduo, que é a singularização. Em nível social, essa subjetividade é chamada de cultura. Pra gente que vem das ciências sociais, da antropologia, da sociologia, a gente tem que (?) dessa linguagem (?) Nietszche já disse: “todo criador tem (?)” E você sabe que, se você quer criar algo novo, você tem que inventar uma nova linguagem também. Nem sempre dá pra falar coisas novas com palavras velhas.
A não ser que você faça o que Foucault propõe, que é rachar as palavras. E supor às palavras um outro significado.
O autor cria uma linguagem nova. Atrás desse livro tem um glossário: Notas descartáveis sobre alguns conceitos. Ele chama de descartável porque você pode e deve inventar novos significados para o conceito. Eu faço isso na minha tese. A minha tese não é a simples reprodução dos conceitos criados.
Porque, exatamente, por inventar, tentar experimentar o que eles estão propondo. Antes de experimentar você assumir-se o criador e não repetidor. O conceito, por exemplo, de subjetividade (?não está definido). Mas, você deve, pode e deve, sempre estabelecer uma relação de produção do conhecimento. Enquanto criador, você precisa estar, a todo momento, experimentando esse processo: rachar as palavras e impor à elas outro significado. Isso é o que nos torna criativos, criador em relação à produção intelectual, senão nós acabamos virando discípulos de algum mestre, e viramos comentadores do que outros já criaram. Tem gente que quer ser (?) ao invés de criar, só comentar. Fazer o quê? Tem gente que aceita as submissões, (?) parece que existe um masoquismo, né? Tem gente que gosta de porrada, de sofrer, de ser enrrabada...tem gente que adora isso! Por isso nos gostamos tanto dos santos, que foram martirizados, que sofreram...Jesus Cristo faz tanto sucesso...
Uma amiga minha, ontem, artista aqui da universidade, dizendo que assistiu um filme do Mel Gibson...e ela é uma artista! (?) não tivesse crítica. Quer dizer, assistiu um filme do Mel Gibson, A Paixão de Cristo, e passou a noite toda chorando. Na manhã seguinte, foi na Igreja Batista e se entregou a Jesus. E não entendeu como é que ela tava lá com a mão levantada na hora que o pastor perguntou, depois de comentar o filme, que ela tinha acabado de assistir e estava absolutamente tomada. (?) Disse que não se deu conta quando estava com a mão levantada, tomada de emoção (?)
Quer dizer, é importante a gente poder dar uma olhada nessa coisa que, a todo momento, é processo. (?)
Diego- Eu acho que essa dificuldade em perceber a questão do processo. Até nas ciências sociais, ela não entende a dialética. A dialética é sempre uma (?) que acha que (?) E a gente tem dificuldade, enquanto sociólogo, de entender o processo. (?)
Babi – Segura aí! Esse processo aqui que ele se refere não é dialético. Esse processo que ele chama de devir não tem nada a ver com a dialética. A dialética é um modo de entender o movimento, é já um avanço! Mas vocês verão que as formas de conceber a dinâmica é outra, diferente da dialética. Não existem (? Sínteses) por exemplo. Não há negação e depois o (? Auto-hegel) hegeliano. De que eu acabo supra-sumindo a negação dentro da próxima afirmação. A dialética hegeliana ela procura a mesmice, não existe efetivamente a diferença (?). A diferença é só partes da negação de si próprio do ser. Do seu movimento de auto-(?desbobramento). Quer dizer, pensar a diferença aqui é: a diferença, ela é inerrabável. Ela não é supra-sumida no próprio movimento dialético, da supra- sunção da negação, que reincorpora a negação do ser. Não! Aqui se concebe que a diferença é a diferença, é o fora, é o irredutível. O que eu posso fazer é dobrar! Mas, enrrabar, englobar. A gente volta pra o próximo (?).
Diego – (?)
Babi – Não! Não tem (? Síntese) Vamos com calma, uma coisa de cada vez. Vamos ver primeiro o que a gente conversou até agora, sobre o conceito de individualidade, segundo esses caras. Vamos ver que outros efeitos produz na gente, tá?
Glau – (?)
Babi – Olhe, nós estamos tentando nos aproximar dessas ferramentas, que são esses conceitos aqui e essa forma de conceber (?essas relações). O que o cara ta dizendo é que o que nós temos chamado de indivíduo é na verdade a unidade produzida em série. Um exemplo claro dessa produção...há uma produção em massa de indivíduos quando você percebe os indivíduos com comportamentos padronizados, comportamento de consumo. As etiquetas. Modo de inserção, de estratificação social, por exemplo, os emblemas de classe, os símbolos do Estado. Por exemplo, o diploma universitário de vocês. O diploma universitário indica a pertença a um segmento social, a um modo de inserção na sociedade, é uma etiqueta. Há uma produção em série de um tipo de indivíduo formado, (?), preparado para assumirem funções específicas na sociedade, que requerem saberes especializados. A universidade produz em série pras diversas necessidades, indivíduos com conhecimentos especializados. São vocês...nós!
Idéias a cerca de ser economista, ser advogado, de esquerda, de direita, etc, etc, etc...Quer dizer, fundamentalmente, o indivíduo é esse que consome, que se insere no modo de subjetividade dominante, fundamentalmente. E que revela o modo como esta sociedade está organizada. A partir, por exemplo, do sistema jurídico. A parir, da organização econômica. A partir do (?eptos), ou seja dos valores dominantes, da sociabilidade daquele grupo. A partir de sinais de (?), por exemplo, medalha, moda, roupa. Modos de cruzar as pernas ou não, sentar-se ou não, regras de comportamento, etiqueta social, etc, etc...
Como é que a subjetividade produz em massa os indivíduos? É por isso, que você vai encontrar grupos que tenham a mesmas idéias, as mesmas posturas, consomem as mesmas etiquetas da moda, o tipo de automóvel. Enfim, essa seria a produção do indivíduo. O indivíduo é, fundamentalmente, esse produzido em série. O que o autor tá chamando aqui do indivíduo que se singulariza, da singularidade, da singularização é o movimento que é interminável, isso é o processo. Que esse mesmo indivíduo que é inventado em série, a singularização é o movimento de resistência, de criação. A palavra resistência e criação têm o mesmo significado. Nesse sentido, resistência e criatividade são uma única coisa.
A singularização o que é? É a resistência a essa englobação, a essa produção em massa do indivíduo. Essa dobra dos modos de subjetivação, tornando a minha existência algo singular. Em que sentido? Algo que dobra a subjetividade que está aí...eu me aproprio de modo único. Eu reinvento na minha existência, agora sim, individual a subjetividade dentro da qual eu nasci e a qual por diversos...por todas as instâncias sociais que me capturam e me modelizam. Eu resisto à modelização e eu invento modos de existência singular, a partir da minha existência. Eu torno a minha existência obra de arte, é um trabalho artesanal. Fundamentalmente, pra Niesztche, inventar-me é a obra de arte. O resto é semiotização: a música, o balet, a dança, o quadro, o livro. Obra de arte mesmo é singularizar-se. Legal, né?
Iana – (?)
Conversas – (?)
Babi – A tua singularização faz parte da produção de outros modos de existência social. Você está, a partir da sua singularização, inventando novas de subjetividade. Que é isso que o autor está chamando de subjetividade discidente...isto é, diferente da subjetividade dominante, que produz o indivíduo em série.
À medida que você, junto com outros, vão inventando essas singularizações... essas singularizações vão se territorializando. Elas vão criando esses contornos, elas vão se semiotizando num modo de existência, numa linguagem que você vai falar, num modo de inserir-se na produção da sociedade... você está territorializando, ou seja, colocando marcas, referências em novos modos de subjetividade. Claro, diferentes da subjetividade dominante, que é a subjetividade capitalista que captura você e te produz como um indivíduo em série. Isso é o que o autor chama de produção de subjetividades discidentes.
Agora o que incita a (?) o exercício tem que ser constante porque, é impressionante, como nós somos moralistas. Nós achamos que “o capitalismo é mal, é ruim, nós queremos romper com o capitalismo, capitalismo é coisa do diabo, então nós não podemos nos inserir no capitalismo, temos que estar fora, temos que ser revolucionário...o capitalismo é do mal...nós temos que inventar o reino do bem! O bem e o mal não combinam um com o outro, o bem e o mal se opõe!” A discidência é uma ruptura radical...”eu tenho que estar fora!” Todo esse modo de pensar (?) estratégia de guerra, na verdade, advém também de uma visão moralista, maniqueísta. Isso vai dar um trabalho muito grande, a gente pensar na cultura capitalística, a partir de uma outra visão, que não seja moralista.
Conversas (?)
Babi – A individualidade é o resultado do processo de Individuação.
A singularidade é o resultado do processo de singularização.
É uma questão de terminologia!
Individuação é um processo. Individualidade é o resultado.
Singularização é um processo. Singularidade é o resultado.
Não existe individualidade e singularidade porque é dinâmica, é devir, é processo. Por isso, que o Foucault, por exemplo, nunca fala de subjetividade do sujeito. Porque o Foucault, concebe, quando a gente trabalha o processo, a dinâmica, é devir...está em movimento. A individualidade, nesse sentido, ela não pode ser concebida, primeiro porque (?) conceito, (? um dado...didático) operacional, a rigor a minha individualidade é um agenciamento, um congelamento provisório. O (? Eu) pode ser concebido como existir, aquilo que por natureza é dinâmico enquanto conceito, eu comparo com você fazer (?) está fervendo aquilo, de vez em quando aparece uns caroços, se condensam uns caroços. Mas o mesmo movimento de fervura e de mexer a panela, aqueles caroços desaparecem (?). O caroço em si, é produzido no movimento, ele não tem uma solidez, uma fixidez, e sim, uma permanência caroço. Há uma (?)absoluta. O que você pensa ser a identidade, é uma (?). É um congelamento (?)
Trícia – (?)
Babi – (?) A questão é perceber se existe a (?) E se existe a resistência, ou seja, a criatividade. (?) A gente aprendeu a opor essas duas coisas: o bem e o mal, o deus e o diabo, o certo e o errado, o capitalismo e o socialismo...A gente tende a pensar de forma binária. Não é a toa que o computador é a metáfora, por excelência, da modernidade. A lógica do computador é a lógica burra, binária. Tudo dentro do computador é produzido entre 0 e 1. Todos os programas mais complexos foram feitos na lógica binária: existe e não-existe, sim e não. Tudo no computador está preso a essa lógica. Isso marcou, essencialmente, (?o pensamento social) desde às idéias platônicas, socráticas. (?)somos ainda, filhos dos malditos gregos. Depois veio o Cristianismo, aí foi a paulada mortal na cabeça da gente. Nós somos binários, maniqueístas, por essência. Essência dada aí, no sentido metafórico. Vai dar trabalho, muito tempo, acho que a gente deve gastar ainda alguns séculos, pra conseguir se livrar, exatamente, dessa subjetividade binária. Que produz esse pensamento binário, maniqueísta, platônico e cristão. Deverá demorar! Aqui no Ceará, então, talvez demore muito mais. Porque é um povo muito religioso, um povo muito bom...um povo que adora copiar as últimas modas que estão aí pelo resto do mundo. É só ver Fortaleza, que a cada (?) é uma arquitetura diferente, a cidade é outra! Se você levar em consideração que arquitetura é a expressão de um modo de conceber a existência na cidade. Fortaleza, nos anos 30, é imitação de Londres, com aqueles bondes elétricos passeando pelo centro da cidade. Nos anos 60, é Fortaleza Belle Epóque, imitação de Paris. Nos anos 90, é Fortaleza Miami Beat, com os arranha-céus (?). A cada 30 anos, o cearense... Fortaleza destruiu a cidade, destruiu a cultura e construiu outra coisa. O cearense inventou a moda (?). (?) inventar modo de subjetividade, processo de subjetivação (?).
A questão da resistência é como você coloca (?). Quando você coloca isso no plano pessoal, você nos dá como campo de análise algo que é difícil de analisar. Você está (?) uma análise (?) micro-fisiológico. (?) a todo momento, precisa ter o controle sobre a produção desse processo, até porque eles são contraditórios também. Não existe, também, no meu entendimento, uma espécie de acúmulo da autonomia que você vai conquistando (?). Em nível (? Micro-fisiológico) cotidiano, você teria que poder, absolutamente, auto-suficiente, pra ter o controle exato dessas questões todas. A tua pergunta, que eu acho que ela leva a gente a fazer outra pergunta, talvez interesse mais: É possível resistir, é possível criar? Como resistir? Como criar? Essa era a grande questão que o Foucault se fazia....Foucault, toda obra dele, está essa questão fundamental, que ele se coloca... “Que tipo de saber, intelectual, eu posso inventar que resista a ser capturado pelo poder?” Essa é a questão, fundamental do Foucault. “Como resistir, a partir, da minha produção intelectual...que ferramentas teóricas que eu posso inventar e que elas realmente resistam a ser capturadas pela subjetividade dominante capitalista?”
Não tem fórmula! Mas uma coisa que parece ser um eixo que indica a resposta. Isso aqui é processo. Se é processo, você admite a construção, a destruição, a re-elaboração dinâmica....(?a validação) nada mais é do que o campo de sentido, o campo das práticas, o campo semiótico que você opera uma nova dimensão. E aí você se descola de uma análise maniqueísta da dominação, de uma análise religiosa que vê a dominação como sendo a expressão do mal do mundo. Você passa a ver o mal como um atleta vê um obstáculo, na corrida que ele tem pela frente. O mal, a dominação, a opressão: são apenas (?) materiais no sob o qual eu elaboro minha criação. As coisas deixam de ter uma moralidade. Elas não são nem boas nem más, elas são apenas materiais na minha criação artística. Eu me sirvo do bem e do mal, não como bem e mal, mas como elementos da minha criação. Claro, (?) não dá para abraçar esse caminho, a partir de uma lógica judaico-cristã. Eu posso me servir da lógica judaico-cristã como (?) serviria pra pedras (?). Tudo é (?encadeável/encaixável)...toda teoria, todo conceito. Eu reinvento significados pras coisas. (?) forma a barriga, uma estrutura que eu vou soldando; o pára-choque de um fusca deixa de ser pára-choques e vira a espinha dorsal.
Acaba o lado da fita
Babi – (?) Não há existência, propriamente humana, fora da linguagem. A não ser que você reduza o humano, há um organismo biológico com funções de (? Manutenção de alguma função). Por exemplo: o cérebro mantém meu coração batendo e meu corpo funcionando, mas sem a linguagem você não pode (?entender isso), você não vê. Ver, diferenciar, categorizar, é um exercício somente permitido pela linguagem. Capturar, crer, ver....é um exercício permitido pela linguagem. Tem uma historinha do Eduardo Galeano, (?), uma criança, aos seis anos, nunca tinha visto o mar e o pai dela leva para ela ver o mar pela primeira vez. E eles vão andando pelas (?), quando chega na última duna, que a criança olha aquilo: aquele céu azul e verde, esmeralda da água....os pássaros voando, os peixes pulando no mar,...aquela coisa absolutamente maravilhosa! A criança fica (?estarramada) extasiada, ela não sabe olhar e ela pede: “Pai, me ajuda a olhar!”. Porque ela nunca tinha visto o mar, e ela não tinha referências, não sabia olhar, ela não sabia discriminar o que era céu, o que era mar. Até ver, pressupõe a linguagem. (?) Mesmo quando você fizer um poema que parece ser seu, na verdade já é uma criação em nível coletivo, social. Por que?
Porque a linguagem é (?) social. Você até reinventa a linguagem, mas a linguagem é, fundamentalmente, uma produção coletiva social. Mesmo quando você está sozinho pensando, você está dialogando com o grupo. Você está (?) alguém, e você está reinventando o social. É impossível a solidão. A não ser na ilusão poética da vida. Mas a rigor é impossível ser sozinho. Não nos é permitido ser sozinho, porque nós somos (?seres-linguagem). No momento, portanto, em que você está inventando processos de singularização, você está, a um só tempo, inventando novos modos de subjetividade discidente. A singularização é apenas a dobra dessa subjetividade, em nível da sua unidade.
Glau – (?)
Babi – (?) Existe...são processos. O padrão, ele parece permanente, né? Mas o próprio padrão é temporário. Geneticamente, nós estamos mudando, só que nós não percebemos porque a escala da percepção da mudança é muito grande, (?). Mas o próprio padrão muda a si próprio. Nós não nos reproduzimos geneticamente em cima de um padrão. Senão nós vivemos ainda (?). O padrão muda. É por isso que eu digo que não há nem em nível biológico a possibilidade de pensar a essência.
Bom, tem um texto da Lia que ela quer ler pra gente, acho que dá tempo ainda. Agora, queria mostrar pra vocês um ponto... sempre voltar, levantar a questão e deixar no ar: eu tenho a impressão que a gente vai ter muito trabalho pra se livrar de uma visão de moral...a gente vê o capitalismo como mal, estamos totalmente impregnados desse moralismo do capitalismo. Porque eticamente tem moral (?). Ora, não existe a possibilidade nenhuma de você produzir uma certa singularização, uma subjetivação (?onde o bem, o bom). Não é isso que importa: “eu sou menos ou mais capitalista?”. O que importa, aqui, é que de que maneira é que eu posso re-significar, dar outra visão, reinventar, mas sem pensar a partir do princípio do pregamento....não importa se é mal ou bom. A estratégia do HIV é inserção plena: ele admite, não só admite, mas ele vive dentro da célula...é uma resistência que ele produz. Ele é o que escapa à célula, porque ele é ambíguo: ele é, ao mesmo tempo, aminoácido e vírus. É assim que ele consegue entrar na membrana celular, por ser aminoácido...ele não se coloca fora da célula, ele se faz parte dela. (?) Nós temos muito que aprender com o HIV, antes de acabar com ele.
Lia lê o texto "Criar, pra quê?", já postado! =)
Câmbio! Desligando!
